A inocência que nos mantém vivos

Fernanda Meira

Imagem: Filip Mroz/Unplash

Algumas lágrimas podem curar, lavar a alma e certas memórias também. O chá de capim- cidreira em tarde chuvosa, a farinha de mandioca secando ao sol, o frango com jurubeba, são pra mim exemplos de fortaleza e conforto. Você pode destacar as lembranças que foram positivas e trazê-las quando a insegurança e o destempero chegar. Pode torná-las um presente de novo e transformar as ruins em combustível e sabedoria.

Há dias intermináveis, desses que a angústia sobe o pescoço e o peito fica pequeno, tão comum a todos os humanos, coniventes nos mesmos anseios, demarcados por vulnerabilidades e riscos ligados ao espaço que habitam. Porém, a capacidade de crer num futuro melhor mesmo no caos não surge de imediato. Se em sua infância teve um modelo seguro e propiciador tem chance de estar em vantagem e poderá fortalecer os laços afetivos e utilizá-los como sustento da alma. Do contrário, terá de buscar seres que permitam essa conexão humana, que não desacreditaram no poder dos vínculos para regenerar e trazer ressignificações. 

Pelos anos vividos, você percebe que cada avanço precisa ser comemorado, como um ritual de passagem, um corte novo ou outra mudança boa. Trabalhamos enquanto evoluímos e evoluímos enquanto trabalhamos. Aquelas coisas difíceis de entender, decido fragmentá-las para caber na percepção de hoje até que ela se amplie e eu possa ver o todo – como um alpinista que chega ao topo da montanha-. O mais difícil são as crenças aconchegantes demais, simulam a mãe boa e compassiva, mas são úteis a prazo de validade. É necessário a seu tempo sair do status de sobrevivente, aceitar sua história e seguir. Depois é preciso espantar a rejeição e encontrar seu lugar, tal como o patinho feio em sua jornada de aceitação, que após perseverar e chegar à primavera compreendeu que a visão daqueles o observaram lá atrás era limitada, ficção regional. Contudo, guardou os ensinos como tesouros e parte vital de seu processo de resiliência. Agora, como repons-hábil utilizará seu potencial interno para realizar e inspirar sua comunidade.

Escutei o relato de uma mãe sobre sua infância de abusos e que agora, presencia a violência intrafamiliar e trabalha para proteger seus filhos. Mulher da periferia, negra, pobre, que carrega muitos estereótipos, lutando como uma valente. Conversamos um tempo sobre as redes de apoio que inclui amigos, a fé, os familiares e o acesso aos serviços públicos. Disse que está cuidando de si e tem um caderno, assim como eu para escrever suas angústias. De onde vem tanta força? Pensei logo no início. Bem sei que, embora precise da magia, ela não surge em poção. Cultiva-se todos os dias, no meio de lágrimas, de diálogo, de olhar nos olhos o problema e reconhecê-lo, de acreditar que pode desenvolver a capacidade de cuidado. Ela juntou cada pedacinho de amor que havia caído no seu caminho e preencheu o coração. Hoje consegue amparar seus descentes, criou uma forma de amar, ainda que as feridas doam.  

Nesta vida tão breve não dá pra demorar a descobrir o que se quer ou qual sua missão, nem esperar o último momento pra dizer o que sente.  Tem que esvaziar em conversa, desembaraçando pra não adoecer, preservar os ensinos dos ancestrais e estar disponível ao novo.  É preciso valorizar o silêncio, a simplicidade, a companhia, sem dependência emocional, deixando ir quando preciso. Cabe também viajar terapiando com a estrada, se movimentar através da dança, de uma caminhada nas pedras ou, com banho no rio.

Desejo a inocência. Innocentia significa aquele que tem a capacidade de curar-se, de encontrar sábias soluções a seu meio, pra si, para o todo. Aquele que tem o pensamento universal e o mais íntimo para compreender seus pares. Deste modo, consegue se dedicar a coisas simples como abraçar árvores e tagarelar com o canto dos pássaros. Porém, precisamos arrumar tempo para estender as roupas, dobrar as meias, pra acreditar que o amor pode se apresentar na amizade, na doação para o outro, no afeto pelo parceiro, pois todos nasceram com a habilidade de amar e sentir esperança.  Então, dê um cafuné, um café, proseie e faça poesia, reze se quiser e puder, não tire os chinelos ou caminhe descalça. Se renda uma vez, escute música de olhos fechados e arranje desculpa para um abraço.

Isso nos mantém vivos para um legado extraordinário e, por ora, caímos na graça de Elis e precisamos cantar … “Mas é preciso ter manha/ É preciso ter graça/ É preciso ter sonho sempre/ Quem traz na pele essa marca/ Possui a estranha mania/ De ter fé na vida”. Ah! Não estamos só.


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