Desdém ao Desespero

Categorias:Perdas e Luto
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Fernanda Meira

Uma neblina espessa cobria o seu olhar. O sofrimento lhe saía pelos poros e não conseguia dizer o que a partiu sem esmorecer. Transbordava, sentia-se só. Perdera a família, a saúde, a capacidade de trabalho e outro motivo pra ter brilho nos olhos.

As palavras tinham um gosto salgado na boca e estremeciam o corpo com arrepio em pele, como se passasse num beco escuro e desconhecido. Ficara sozinha com sua dor por muito tempo e agora começara a descobrir a força contida na inércia, essa que a protegeu e a conectou ao futuro eu. Foi sentada num pequeno tamborete embaixo do ingazeiro que reconheceu o Nada dentro de si. Sua mente adoecia pelo turbilhão de compromissos e impotências e no instante que conquistara o silêncio, comemorou. Nessa morada interna sua alma escutou o sussurro das sábias ancestrais, aquelas que insistentes transmutaram as experiências doloridas em palavras de ensino.

As perdas, os desenganos, seu grande amor, transformara sua percepção do mundo, sensibilizou suas opiniões e trouxe humildade. As mudanças vieram como tempestade de areia, solicitando o canto para o alento, o ombro pro choro, o violão pras noites sem sono e somaram aquelas de fora, também sem controle. Ainda se orgulha de sua simples casa de alvenaria, com orquestra de cigarras, goiabeiras de cheiro atrevido e, enquanto passam tais devaneios, agradeceu pelas quatro gerações que transitaram em sua casa desde que ali decidiu viver.

Por um instante, tudo estava quieto sob o céu azul negro e vira quase tudo que ali passava. O tempo era poderoso: capaz de separar, compreender e trazer o velho de novo.  Observou que antes das estrelas de verão, o garoto caminhava com um latão colorido e um pedaço de madeira que controlava o ritmo da noite. O restante da vizinhança subia cansada a ladeira e a senhora da padaria à igreja em prece.  A mãe passou no açougue antes de chegar a casa, trazia a mistura da janta e olhou de soslaio quem sentou no meio fio pra tomar tereré.  Quem andava na rua, sentia o cheiro de boia, de feijão no fogo, com panela de pressão chiando do cozinho de carne. Não estava devidamente interessada na novela das sete… Cada ato dessa existência fazia esquentar o peito, com um cotidiano que ao oscilar entre o imprevisível e o comum, trazia alguma esperança ao minuto seguinte.  

Criou outro jeito de ser perfeita, submetida a sua realidade. O anterior que lhe exigiam era indigesto e suas marcas suscitaram outros desejos e despertamentos, outro jeito de continuar caminhando em meio à intolerância, ao ódio e a opressão. Caminhará com flores e os pés na terra, mantendo a imaginação que é vida, estímulo pra criar, soltar o riso e se apaixonar.  As palavras na rádio da comunidade esperançam, combatendo com a certeza e o amor a cimentada violência que ainda não suprimiu os domingos de aconchego, café e biju.  

A fé sobrevive, costurando cada vivência na alma, alinhando um tecido valioso, completo. À medida que se torna quem é, ensina outras meninas, mulheres, homens e meninos a defenderem sua dignidade, a comporem micromomentos de prazer, a trabalharem aguerridos em sua missão como quem se alimenta do campo ou estuda na biblioteca quinta a noite. Sabe que tem a força das ondas, da correnteza do rio e no reflexo da água observa sua beleza. É doce como manga, firme e direta como vegetação do cerrado. Instável às vezes, acompanha o movimento do vento, as fases da Lua e pensa que é a Terra que a segue, sincronizada. Vê o desenho de sua vida e sabe que pertenceu a muitos lugares e o solo em que pisa no agora se transforma e robustece seu legado.

Não precisa do calar prolongado, nem do grito. Faz-se ouvir em todos os espaços que cerceia sua curiosidade e teimosia. Com experiências singulares e ressignificadas, o futuro a preocupa, porém não apavora. A luz expandida através das experiências vê a tristeza para a reflexão, a alegria para a vitalidade e a ansiedade para o caminhar ligeiro. Segue, ainda que as frustações, os desafios de mobilidade urbana, de falta de acessibilidade, dos preconceitos pelo diferente a titubeiem.  Deseja um dia melhor, com mais liberdade para exercer sua potencialidade, num espaço imenso e excitante e, como poetizou Fernando Pessoa, o castelo será construído com as pedras de suas ruínas. Ninguém caminha só e se não tiver humanos, irá com as preces, com os sonhos, os livros e as memórias.

Quanto a morrer de nostalgia ou morrer de fome, nenhuma das duas escolheu. Ainda tem o pão, a cama aquecida e a roupa cheirosa. As lembranças que a amortece somam às que a enobrecem e vira assunto pra dividir na missa de domingo, no Ilê de sábado à noite ou nas manhãs ensolaradas no recanto de orquídeas.

Assim prefere, amando as próprias perguntas e que o final seja mais extenso que a própria vida. Jamais desistirá.

Repostagem em 08 de Janeiro de 2019.

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