Clandestina Esperança

Fernanda Meira

Imagem: Loren Joseph/Unplash

Considero o exercício de estourar pipocas uma proeza, algo peculiar. Isso porque estou acostumada a saboreá-las por outros feitos que não os meus. Penso ser de grande responsabilidade transformar todos os grãos, o que talvez não exista, mas ocupa meus pensamentos em momentos de ócio. Tal façanha exige conhecimento de causa: pra mencionar a temperatura correta, a quantidade exata de manteiga ou óleo, qual tipo de recipiente, se coloca sal antes ou depois… Todos esses fatores, quando harmônicos formam pequenas flores brancas e proporcionam diversão, saciedade e aquilo que sua criatividade permitir. Se perder a paciência durante o “preparo”, terá a frustração de saber que os grânulos queimados perderam a chance de brotar.

Existem atividades mais custosas que elucidam o desafio de aprender a viver. Podemos encontrar na internet receitas para o piquenique de inverno, porém existir pede mais que isso. Requer conhecimento de suas potencialidades, forças, limitações e do momento vivido. Nesta longa, ás vezes fria e turbulenta caminhada, cada indivíduo poderá escolher como se reabastecer, uns pela espiritualidade, pela literatura, pelo prazer ou imaginação. Outros irão passar sozinhos, ao lado com mãos juntas ou separadas. Todos, sem exceção, precisam terminar o percurso.  

O processo de desenvolvimento é dinâmico, alternado por experiências de dor e êxtase que proporcionam resultados próprios a cada pessoa, sendo lindo ou devastador, intenso ou monótono ou, os dois. Alguns estilhaços deformam os pés e a alma, principalmente porque desconhecemos a força existente em nós e pelo desprivilegio, por permanecer à margem por outro ser com mais poder numa configuração social. Situações de perdas como a morte ou descobrir um aspecto da sombra em si mesmo, enfraquecem os tentáculos de nossas crenças e os pré-conceitos. Exige perseverança, integridade pra não sucumbir e de uma análise minuciosa do que restou e do que se pode construir. Acrescentam os aspectos positivos e que irão gestar o enriquecimento pessoal, tornando possível uma flor nascer do concreto, pois haverá brechas pro sol nutrir a semente lançada ou solo vigoroso o suficiente para romper a solidez artificial.  

Começa por descobrir-se Humano: inseguro, frágil, imperfeito, de matéria finita. Pode ser nobre em seus valores quando aprecia o belo, se tem humildade para aprender, tiver outro ponto de vista e se compartilha o medo do desconhecido. Tais questões efervescem quando se tem diante de si um homem velho, analfabeto, que perdera sua esposa por falecimento e encontra-se negligenciado pelos filhos. Por alguns anos espera sua aposentadoria de ruralista e não tem nada que essa sociedade do lucro valoriza. Consequentemente, você recorre com esforço aos detalhes de sua vida que o constituíram como ser valioso, conclui que ele ainda tem força para o trabalho e o conduz para uma gratidão conjunta pelo pão quentinho saboreado as 07h, pelo café em coador de pano e o colchão que recebe o corpo cansado antes das 20h. Desfocar da injustiça, enfraquecer o ódio e a raiva, eis o desafio. Quando se consegue, pode visualizar o percurso com sua densidade, conquistas e retomar a capacidade de planejar.

O que realmente destrói é a ignorância, a ausência de sabedoria, que leva a estupidez, a uma existência sem sentido, propósito e egoísta. Ao contrário seríamos mais tolerantes com a imprevisibilidade, agindo com autenticidade para comemorar e prantear. Podemos reconciliar com o passado, percebendo que as crenças de outrora que agora pensamos ser estúpidas serviram como degrau para chegar onde estamos. Foram diferentes pertencimentos, que confirmam a incrível adaptabilidade do ser humano, feito para estar em movimento.

Digo que crescer com pais portadores de doenças crônicas propiciou um desenvolvimento incomum, com responsabilidades precoces, às vezes com desamparo se comparado como qualquer criança, adolescente e seus pares e, que potencializou a sensibilidade, para reconhecer a preciosidade da vida, estimulando a criatividade para enxergar além da dor. O mais interessante e agradável é que também podemos ter um crescimento exponencial através da abundância de oportunidades, nos espaços de poder, por um talento nato ou “vida comum”. Torna o cotidiano extraordinário, uma pulsão de vida, como a paixão de Florentino Ariza por Fermina Daza que foi a resposta, pronta e suficiente para o questionamento do comandante aborrecido e entediado pelo constante ir e vir da vida. Florentino tinha uma razão para viver, que o impulsionava e permitia suportar as intempéries da dominação e segregada comunidade. Tinha essa esperança clandestina que apenas cessa quando esvai o sangue das veias. Ninguém a vê, mas é forte e incansável.

Ter um ideal, uma paixão em cada molécula do corpo, irriga o cérebro e incendeia o discurso. Cada decisão pode ser melhor para criar mais tolerância, comemorar as vitórias, ter empatia. Pode ser que apenas ler um livro ou aprender como se organizam os arquipélagos e oceanos não seja suficiente para construir uma ética, um novo olhar, contudo a consciência mostra que temos escolha para seguir ou ficar, para interpretar a realidade de outro modo, ao contrário das plantas: programada para exalar o mesmo cheiro e seguir o curso do vento, impedida de mudar de lugar por conta própria até que alguém decida por fim a sua existência.

É inevitável rememorar Carlos Drummond dizendo que os homens estão menos livres. Ainda assim é no periodo mais difícil que nos despimos, tiramos as máscaras e descobrimos o real potencial. Tem muita gente pessimista, preguiçosa de ideias que sequer aproveita o presente. Está rancoroso o suficiente para visualizar o futuro dissonante e necessitam de perseverança, flexibilidade e autoconhecimento. Então, para inovar, como pulverizou os intelectuais, é preciso mais energia criativa, atrever-se e encontrar um elemento de ruptura. Acrescento ainda o acolher o passado, desafiar-se proporcionalmente, defendendo o que é de direito, importando-se e ajudando ao outro. Mas não se apresse tanto, continue em movimento, otimizando o que há de bom, integrado ao todo, apropriando-se de seu espaço, honrando seu lugar e o abastecendo pela fé, pelo amor e saber compartilhado. Pense criticamente, trabalhe de dentro para fora. Comece com o cotidiano, aberto, selecionando o mais importante para ver e ouvir, valorizando as pessoas, agradecendo l’immensità della vita.  

Enquanto há pulsar neste subterrâneo coração, vive a clandestina esperança, que se caracteriza como um combustível invisível, mantendo-nos vivos, respirando e levantando a cada manhã pra recomeçar. Enquanto há fôlego seguiremos, até que um dia despertando como Clarice e, ao olhar para nós mesmos sentiremos “uma espécie de pudor ao estar diante de tudo aquilo que é grande demais”.

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