Paredes de papel

Fernanda Meira

Imagem: Aaron Mello/Unplash

Era entardecer de outono e o sol ainda estava disposto, atingindo com animosidade cada canto da casa simples e úmida da chuva de anteontem. A conversa animada dos compadres juntou-se a paisagem ao final da rua machucada, destacando–se pelas belas planícies com criativos tons de verde musgo e abacate ou como preferir quem observar. As copas das árvores explodiam em cores, atenuando as histórias tristes que ali havia. Como paredes finas indiscretas deu tempo de ouvir “… a coisa tá feia sinhô, mas a gente vai dando um jeito por aqui…”.

E dá–se um jeito, diz-se muito pelos lugares que cresci. Há problemas densos, estruturais, difíceis de lidar. Por vezes, pela pobreza doída adapta-se à falta e inventa todo dia um jeito novo para continuar a viver. Existem os que são gratos pelo pouco, conhecem seu país, exerce seu direito a voz, inquietos e insistentes. Outros, localizados à margem e cansados, foram esmagados na tentativa de relacionar-se com o outro, de dizer sem ser ouvido e, dessensibilizaram.

O mais importante neste contexto é o mecanismo de autorregulação, presente em cada família. Cada membro tem potencialidades e necessita tomar parte de si mesmo para se desenvolver, enfrentar as adversidades de modo produtivo e ajustado. Não cabe julgar como cada pessoa, pobre ou privilegiado, lida com a demanda do cotidiano, seja de contento ou decepção. Sobreviver ao caos requer inteligência, coragem e trabalho duro. Nem sempre existe condição adequada para manter-se íntegro diante a violência, a injustiça e o desamparo, e é preciso encontrar alguém que seja páreo, que se identifique com sua realidade e, num esforço coletivo, se organizar. Depois, ficando a sós, conhecer o que lhe apetece, o que ainda funciona e prosseguir.

Somos filhos da Terra, que se constitui e regenera como um organismo vivo e dinâmico. Este corpo em matéria dela se origina e reflete um sistema integrado, com crises aparentes e resiliência espantosa. A grande mãe Natureza traz inscrita no fluxo das águas, nas copas, nos troncos das árvores e nos animais a continuidade, a força e a flexibilidade. Ela pede cuidado de si e de cada um de nós e preocupa que estejamos mais distantes um do outro, priorizando interesses pessoais, com pouca ou nenhuma respon-habilidade. Mas, tem muito a considerar. Estamos aprendendo dia a dia, com a fala de nossos colegas, com a família a que pertencemos, com a diversidade apresentada e riqueza cultural. Podemos melhorar e encontrar sentido em cada aspecto apresentado nesta existência. Interligados, somos feitos do todo e o modo de pensar é o resultado dessa construção. Importa neste instante e além da razão, valorizar a imaginação, a fantasia e a intuição, alcançando dessa maneira alternativas que ultrapassam o não dito e concedem sentido ao viver.

É bem verdade que estamos à flor da pele, por fatores que excedem os privados. A exposição a histórias de riscos, de violação de direitos, aos noticiários insistentes no caos, causa aumento de ansiedade e do estresse, principalmente se não temos uma concepção amadurecida do sofrimento. Assim, como um sujeito de escolhas, pergunto: o que farei enquanto persona para conservar-se útil ao meu espaço de convivência, para crescer com cada experiência e influenciar positivamente ao meu redor? O ser humano detentor de sua história e propósito age com honra e dignidade. É feliz, empoderado, atua como um verdadeiro ente de relações, com reciprocidade, dedicação, aprimorando suas habilidades, escolhendo cada palavra e energia ao indivíduo próximo. Sabe-se vulnerável, busca autoconhecimento e cuida de si, numa cisão de corpo, mente e espírito. Como resultado desenvolve a generosidade, a espiritualidade, a empatia, conhece seus direitos e defende o que é justo. É agradável recordar brasileiros, como seu Zé do caroço, que em momento de crise, de censura à informação utilizou sua atuação para conscientizar sua comunidade.

Somos memórias vivas e nossos pais enxergam por esses olhos. Construímos um legado para os de perto e distante e necessitamos reforçar que cada um “traz em si um ser capaz”, de ser melhor do que é e exercer todas as potencialidades. No palco ainda está o poeta, o ator, a orquestra, a banda tocando rap. Lá em cima do morro ou na calçada tem o funk, o rock insistente, os timbres gospel. Cada um expressando o que sente por um viés que não o seu, pela palavra aberta ou cantada, na dançada ou entoada. Na catedral conservam-se as rezas e as preces da madrugada. Tem a terapia, o encontro com o templo sagrado de nós mesmos, no yoga e na meditação, nas rodas de samba e nos hinos do Sabbath. Tem os tambores nos terreiros de Ilê, a risada de criança, o silêncio da biblioteca, o conforto do beijo e do abraço. Cada pessoa pode encontrar sua forma de sentir, de suportar o avesso e fortalecer.

Compartilhe vivências, oportunize para ressignificar e maravilhar-se com novo e conhecido. Não espere encontrar respostas para os porquês. Como resumir e simplificá-las para seres complexos que somos?  É como esperar que uma só teoria oferecesse direção sobre o Universo, sobre as inquietações humanas e fenômenos sociais. Somos seres em ação e, diante disso, é preciso suscitar o saber interno, entender as limitações e aceitá-las como chance de algo maior. A mente pode acumular uma infinidade de dados, obtidos através de experiências e utilizá-los para um desafio posterior. Até o desequilíbrio se constitui como instrumento para evoluir e transformar-se. É prudente trabalhar a perseverança, atuar com paciência, cônscio de que tudo muda, como Perls já dissera “não apresse o rio”.

Em um ciclo que reinicia, reverencie suas raízes e mantenha a esperança com os olhos abertos. Lembro-me do velho senhor de 98 anos que, fragilizado em uma cama escolhia pelo que ainda se conservava intacto: sua tradição – de café da manhã “quero mandioca com carne e pirão”-, dizia.  A lucidez não deixa esquecer o passado, traz o perdão e planeja o futuro. Traga de volta as histórias, as cantigas de infância, agradeça o cheiro de rosa e alecrim e o vento frio. A insegurança, o medo, o esquecimento e a raiva estarão presentes e somarão para o enriquecimento pessoal. Como se todo mês fosse dezembro, iremos rever prioridades, ficar perto de quem ama e de nós mesmos.

Enquanto respirar, formaremos um estoque de experiências, guardadas para os dias de confusão e tristeza, acumulados: de carinho, plenitude dos dias no campo, por lavar o cabelo no rio, das tardes fazendo cocadas e tostando farinha no tacho. Terá o cheiro do café recém – coado no amanhecer, das noites assistindo filmes com gargalhadas e o abraço amoroso de quem se deseja.  Preencheremos com o gingado, com o milho e queijo quentinho, o cheiro de madeira e embalos de Nina Simone. Guardaremos a euforia de superar aquela prova difícil, de ler Ângela Davis e finalizar um treino pesado. Será abastecido com as notas de resistência cantada por Kirk Franklin, por Amazing Grace de Wintley Phipps e com o toque dos ancestrais, daqueles que protegeram e fizeram nos sentir amados. Não faltará essa espiritualidade, contidas nas preces, nas rodas de dança e no canto, que sustentaram nossos queridos, servindo como alimento visceral nas matas e no sertão.  

Encrave o pertencimento, calibre sua capacidade e direcione para que cada objetivo seja alcançado. Pegue o curso do rio e deixe ir. Podes acolher a dor, os destemperos e a mudança de estação. Deixa vir o inverso e se prepare o inexplorado que a vida trouxer. Podes ser feliz assim.


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