Depois que a banda passar

Fernanda Meira

Era final de madrugada, silenciosa como término de festa. Caminhava entre pedras pequenas e chão corroído, enfeitado por restos de confetes, tintas e paetês. Havia espaços bonitos, iluminados pelo sol ressurgindo acanhado, receando apagar o brilho da noite. A luz evidenciou as marcas de uma cidade grande com jeito de interior, mostrando que sabia os segredos de um lugar, onde salpicaram cacos de vidro, varinhas de princesa, intolerância e, fantoches.

Uma das utilidades do after day é poder pensar as coisas. Pensei em meu país. Com borboletas no estômago, valho-me da geniosa companhia de Bernardo Soares

 “Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente. Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação, uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda vida social dormente, por todos, por tudo (O livro do desassossego, Fernando Pessoa, pág. 98).”

Por um instante, tenho vontade de ninar essa Pátria adoecida, carente de crédito e vida inteira. A Mãe- Terra, sobrevivente das ambiciosas decisões humanas precisa de afago e seus filhos de redenção. Existe um domínio transcendente, uma realidade invisível e maior, da qual não temos controle. À medida que desenvolvemos a consciência apuramos a percepção, enxergando mais de nós mesmos e alargando as possibilidades enquanto viventes de um todo maior.  Contudo, continuamos na busca por propósito, numa incessante sede por saber e sentido.

A obra Ciência e Espiritualidade, escrita por dois pensadores, Deepak Chopra e Leonard Mlodinow expõe as diferenças e a contribuição existente pela ciência e a espiritualidade. A última preconiza o autoconhecimento, o alargamento da sensibilidade e, através do contínuo contato com eu propaga mudanças significativas a outras pessoas. A ciência demonstra-se curiosa, perspicaz como artista, assumindo uma condição de detentora do saber, importante para sanar grande parte das mazelas humanas. É verdade que ambas fornecem respostas às inquietações, intrínsecas do indivíduo. No entanto, ainda que se intensifiquem os conflitos intrafamiliares, políticos, religiosos e morais, grande parte resulta de um afastamento do próprio eu, de uma pobreza interior, ausente de questionamentos, reflexão e contemplação.

Além da objetividade é bem quisto apurar os olhos e ouvidos.  Isso vem através do admirar, inventar, aproveitando-se da arte, da música, dos livros e das crianças. É pedindo para Deus conduzir a vida, pois nEle vive o amor, a justiça e o bem-querer, a compaixão e a lucidez. Com o divino morando em nós, enxergamos melhor a nós mesmos e desenvolvemos clareza em cada diálogo e escolha.

Encontrei-me com uma senhora, numa tarde encalorada e enfadonha. Tinha meia idade, com pele sulcada e o olhar de quem não acredita nas rezas que recebe. Embaixo de uma árvore frondosa, o único lugar fresco no chão escalpelante, expunha o relato que quem há muito convive com a escassez e a desesperança. As crianças ao longo de nossa conversa iam chegando. Tentei esgueirar-se sorrateiramente por outros assuntos, preocupando-se com o ciclo da falta e sofrimento, reconhecendo que a mudança de prosa excede para aspectos estruturais.

Quem agora cresce constroi expectativas e esperança. Devo-lhes estimular a sonhar ou acreditar primeiro que se pode realizar? O que pode concretizar quando há o esquecimento, a invisibilidade, o preconceito e a exclusão social? Há mais famílias onde tem ausência de reciprocidade, que impera a opressão e a negligência. O desafio é mostrar o potencial pra alguém que nem sequer conhece a possibilidade de ser diferente. Qual será nossa postura enquanto seres autônomos e conscientes?  Ainda possuímos a liberdade de dizer, de incomodar e, por vezes, escolher qual produto beneficia. Ao que pouco ou nada tem, que precisa de humanidade e interesse, vejo as palavras de Pedro Abrunhosa: “De que serve ter o mapa, se o fim está traçado? De que serve a terra à vista, se o barco está parado? De que serve ter a chave, se a porta está aberta? De que servem as palavras, se a casa está deserta?…” Contudo, em meio a penúria escancarada, vou caminhando como quem afasta obstáculos em extensa floresta, procurando o melhor caminho para chegar ao destino. O sofrimento, este não deve ser julgado, nem evitado. Dificuldade maior é lidar com a decepção e tristeza do outro. Elas nos torna frágeis e inseguros, com uma propulsão de crenças e não aceitação. Necessitamos ser autênticos, revigorar-se através do abraçar de si e analisar perdas e ganhos de cada parte do dia.

Lembrei-me de um dia difícil, do homem amargurado que tinha em sua rua jabuticabas, goiabeiras, jurubebas e mangas-rosa. Sua casa simples era cheia de netos, amáveis e de boa convivência. Havia também uma vizinhança que lhe emprestava folhas de guaco e pequis. Era a pessoa mais próspera que eu havia encontrado até então. Mas que conseguiu me dizer: “está tudo difícil minha filha”. E eu, que já conhecia o conceito de abundância e prosperidade, agradeci pelos cantos de pardais, dos sabiás-laranjeiras, da comida cheirosa de minha tia, da casa cheia e família carinhosa, da criança recém-chegada que me dá tantos sorrisos.  Tenho alimento, banho fresco e roupas limpas. Posso ficar com os pés no chão, ler Camões, Dostoievski e cantar.  Sou grata ao corpo que a tantos lugares me leva e a inteligência que não deixa viver alienada.

O “ter” em espaços imbuídos por determinantes sociais adquire outro significado.  Sei que a prosa e a poesia os alcança e representam aqueles que resistiram à escravidão, a seca, aqueles que lutam por terra, por um lugar para chamar de seu. Os sonhos são o início de mudança, injeta na alma vivacidade, tolhe preconceitos, produz crenças menos violadoras e torna real a capacidade para se recuperar e crescer. Também investe energia vital, contraria expectativas e aguça curiosidade. Já estamos um bom tempo por aqui, cabe sermos proativos, com humildade para compartilhar e aprimorar-se no saber.

Dizem que fevereiro é o mês da purificação, do carnaval, de chuva com sol e propício a catarses. É o mês da senhora das candeias, da deusa do mar, que passa tão rápido como balas de festim. Estou convencida que cada minuto precisa ser a vida em gesto, de interesse sincero e sorriso. É para aproveitar, lavar o cabelo no tanque, conversar sobre cachorro, rir descontroladamente e contar histórias. Fiquei maravilhada ao observar roda de capoeira no terreiro da capela de Nossa Senhora. O legado estampou em minha cara e justificou a inspiração nos heróis de causas civis, das mulheres, dos negros e trabalhadores. Naqueles que não subestimaram o potencial de provocar mudanças positivas. Acredito nas preces que recebo de amigos queridos e, nas de minha mãe que ainda ressoam em meu cotidiano. Tem força nos mares, nos ancestrais, no som dos atabaques, nas canções que entoam o sertão, nas Marias, no Tupã, Yavé e nos Orixás. Estão nas histórias do velho Chico, contadas por meu pai, que trazem junto ao divino o combustível para tomar decisões.

Quero, no entanto, a bravura de Sojourner Truth, a força feminina que participou pelo sufrágio das mulheres no século XXI, na região mais segregacionista dos EUA; desejo a coragem de quem marchou de Selma a Montgomery, a sabedoria sagrada de Jonh Lewis, Obama e Luther King. Aqueles que protestaram em poesia, como Jacinta Passos, em quadrinhos, como Henfil, que lutaram como Zuzu Angel por seus queridos e resgataram a esperança. Entre os inúmeros mártires e viventes, você pode elencar o seu. O mais importante é dar atenção às configurações sociais que são derivadas de ideologias, que podem ferir os direitos humanos, que financiam práticas onerosas, violadoras, que afastam da realidade do outro, propagam a rigidez e causam fanatismo. Precisamos conhecer o que embasa nossa prática e educar seres humanos para serem resilientes, para resistir a paradigmas impiedosos e preservar o legado daqueles que mantiveram a fé.  

Pouco se acostuma com a realidade despida e crua, semelhantes às crônicas de Charles Bukowiski. Serei mais competente quando puder confortar quem nada tem. Por enquanto, não irei desfalecer diante das dificuldades políticas e econômicas, recuarei quando necessário, tendo a força de Deus, de meus pais e ancestrais. Aprendendo a ensinar, a ser capaz de liberar a dor e continuar. O país é nosso por direito, temos a floresta, o rio, o brilho do sol pela manhã, com a brisa que abraça quando inquietos e refrigera a mente ao entrar pela janela. Manteremos os ideais, ainda que perseguidos neste tempo de ignorância, frugalidade e privilégios aos “senhores”.  

De todas as coisas que ficaram no chão, o samba da benção ecoou no peito. Porque o samba ainda é uma forma de oração, assim cantou Vinícius: Porque o samba é a tristeza que balança/ E a tristeza tem sempre uma esperança/ A tristeza tem sempre uma esperança/ De um dia não ser mais triste não.

Deixe uma resposta

Nome*
Email*
Url