Em pouco tempo não serás mais o que és

Fernanda Meira

Imagem: Razvan Narcis Ticu

Como dizia o poeta… “[…] porque a vida só se dá pra quem se deu”. Se você ler o poema todo poderá se sentir incomodado, porque Vinicius não era de meias palavras. Mas, cada palavra é impetuosa e propícia para quem suporta o que não aguenta.

Nos últimos anos, convivo com uma inquietação interna suficiente para provocar uma pequena desorganização em minha agenda. Descubro, no entanto, que tal situação é positiva se comparada ao estado de insensibilização sensorial, adequada à preservação psíquica, que me encontrei após a perda dos meus pais. Aos poucos, os receptores de informação foram reparados, caracterizando um processo lindo e maravilhoso, no que se aproxima a um novo nascimento. Relatar essa experiência é intencional, pois me leva a mencionar o que considero o maior desafio: acreditar de novo. Acreditar para recuperar a capacidade de decidir por si mesmo, para ser interdependente e planejar o amanhã. Consiste em lidar com crenças solidadas por experiências de perda, de des-locamento, na reformulação de planos que outrora estavam em habitat confortável. De certo modo, quando você vivencia uma dor intensa, é natural que as próximas ações do eu sejam de preservação, para evitar um novo trauma e poupar conflitos. Então, você paralisa, fica entorpecido e com medo de arriscar e o desconhecido nunca será o mesmo.

Todo ser humano nasce com a capacidade para tornar-se o melhor, dentro de suas possibilidades e transcender limitações (redundância necessária). Porém, em alguns momentos da vida, as crenças e verdades absolutas são confrontadas e se desconstroem, pouco a pouco, apequenando a mesmice e o comodismo. É preciso coragem, pois o medo é o principal mecanismo protetor e, também limitante. Para maior conforto, importa identificar o período de transição que o levará a uma nova fase da vida, num amadurecer consciente e fluido.  

Os dias frios e as noites de céu estrelado são prospectores de crises existenciais. As perguntas mais frequentes se referem à origem da complexa vida, de seus componentes determinantes e os mistérios do além daqui. Em minha pequena jornada de vida, consinto que não terei todas as respostas e que, o propósito e o sentindo deste viver precisam ser buscados. A inquietação surge ao compreender que a vida é efêmera, ajeitada com instantes e memórias. O tempo torna-se mais relevante e implora para não ser desperdiçado. Seremos livres se tomarmos consciência do aqui e agora e apreciar o presente ao invés de realizar uma atividade pensando na próxima tarefa. É plausível que o tempo passa “mais rápido” quando imergimos na abundância que hoje nos é presenteada.

Voltar crer é uma questão vital, é envolver-se numa adição gradual de desejo, de pulsão. Em alguns momentos a anedonia estará, mas como responsáveis pelo próprio destino, nos movemos pra ganhar impulso e concretizar o querer. Neste momento, o coração e o intelecto precisam estar unidos, num exercício diário através da meditação, de uma prece, de uma leitura provocativa ou música pulsante. Falta viver com plenitude, pois estamos em construção, aperfeiçoando pra alcançar o que sempre quis, pra ir a lugares extensos e inacreditáveis, como o azul russiano. Contudo, a descrença é uma oportunidade de construir de novo, de mudança e reafirmação. Pode ser um ponto de partida, pra sair da inércia. A cada ação decide-se ter fé e aos poucos surge o vislumbre pra aquilo que se espera e preenche o interior com força e amor. Assim, o Universo irá retribuir pelo esforço, num movimento esperado da natureza.

Tenho medo do “tarde demais”, mas, ainda que o futuro seja mistério, vou aprendendo a receber as surpresas e olhar cada experiência com gratidão. Seja grato por cada partícula do corpo e pelo cheiro de cada pedaço de chão. Em minha congestionada coletânea de livros, está o “Antes de partir”, da enfermeira australiana Bonnie Ware. Como cuidadora de pacientes terminais, ela compilou experiências tocantes e enriquecedoras sobre o que seriam os últimos dias de vida dessas pessoas. Posteriormente, escreverei sobre esse tema que considero uns dos mais educativos na arte de viver. Por ora, em um dos capítulos do livro citado, ela sugere listar aquilo que melhor executamos e o que mais gostaríamos de fazer. Fique impressionada com os resultados, embora conclua que não é uma tarefa fácil e, talvez tenha que pedir ajuda a alguém próximo e ficar segundos em silêncio. Como uma atividade propulsora de autoconhecimento, cabe identificar seus valores e condições iniciais para iniciar uma mudança gradual, em direção a um âmago ressignificado e cheio de compaixão por si. Pergunte: o que este ser ressoa? Escute seus erros e atente-se para os acertos.

Paulo Freire traz o termo do “inédito-viável” e o define como aquilo que não é vivido, o que é sonho e pode se tornar realidade.  Ele surge por decisão, ao identificar o problema e posicionar-se de modo a encontrar alternativas para enfrentar ou esgotá-lo. Entretanto, há sempre uma saída e acreditar no inédito viável é viver a utopia, o “ainda não” que movimenta e traz perspectiva.

Ao longe, ouço a canção de Cartola, predizendo decepções do amor em “o mundo é um moinho”, mas colocando numa estrofe a frase perfeita: “Em pouco tempo não serás mais o que és.” Depois dele, fico com Lenine, pra dizer que a vida é tão rara… “Será que temos esse tempo/ Pra perder?/E quem quer saber?/A vida é tão rara […].

2 Comentários

  1. Rodynei Pereira Nolasco
    20/06/2017 at 07:16

    Parabéns!!!
    muito lindo, adorável!!!
    tudo que vc escreve tem um estilo próprio só seu de escrever com inteligencia e muito carinho nas suas palavras. Coisas que vivenciamos e não conseguimos expressar e vc faz com maestria.
    Parabéns. beijo na alma!!AMEI!

    • Fernanda Meira
      04/07/2017 at 12:54

      Rudy, você é uma pessoa maravilhosa e traz pertencimento, alegria e muita gentileza! Obrigada por estar sempre por aqui e por perto. Bjo no seu coração!

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