Do prazer a positividade da dor

Fernanda Meira

As descobertas colorem o aprendizado, trazem leveza ao cotidiano, afinam a sensibilidade e transformam constantemente minha percepção. São acrescidas por conversas, momentos de introspecção, observações aguçadas e escuta contínua. Compartilho histórias e experiências, por acreditar que elas aproximam pessoas, promovem identificações e permitem o conhecimento de nós mesmos.

Recebo depoimentos de amigos, colegas e conhecidos, que passam por agruras semelhantes a minha e, expõem dificuldades peculiares, enfrentadas neste “vale de lágrimas”, como diziam os antigos filósofos. Durante esta curta trajetória de vida, assimilo informações e apreendo a complexidade do sofrimento. Isso mesmo. Complexidade. O sofrimento, como uma persona, leva à mobilização de sentimentos mais profundos e inunda a percepção com memórias de antepassados, jazidas no inconsciente. Causa maior dos porquês e compagnon de route.

A separação consiste a fonte primária do sofrer. Esta que alia a perda e lembra-nos da morte. Vem com a possibilidade de desintegrar-se: pela falta do outro, pela certeza do fim e, da probabilidade de sofrer. O imediatismo e o individualismo protagonizam boa parte das decisões humanas. Assim, leva à crise existencial, outro padecer, que se intensificou com o fenômeno da “verdade relativa”.  Como um paradoxo, o incentivo ao livre-arbítrio e à busca pelo propósito pessoal, provocou a perda de referenciais seguros para se apoiar. Neste contexto, podemos inferir que existe pouco espaço para vivenciar as angústias e o sofrimento. Lugar tão necessário, que os estoicos já enfatizavam: tal angústia, advinda do medo da morte e, do consequente sofrer, não deixava viver e desfrutar o presente. Vencendo – a, seríamos verdadeiramente livres.

As dúvidas inquietam e o próprio desejo, o anseio de “ter” que tanto nos impelem, pode em meio ao mar de expectativas, aumentar a frustração. Tais desejos nos movem, contudo, a satisfação precisa ultrapassar as conquistas, para não vivermos em função de bens concretos e circunstâncias.

Algumas religiões, como cristianismo, interpretam o sofrimento em sua teologia principal e o entendem como finalidade para aperfeiçoar e corrigir-se. Antes disso, os hebreus e, algumas correntes judaicas, o encaravam numa linha determinista, como um preço a ser pago pela desobediência. O sofrimento como penitência ainda permanece, com nova roupagem, mas travestida em um discurso de causalidade por várias comunidades.

A ciência, ao investigar o corpo humano, focou primordialmente nas causas orgânicas. Desta forma, o sofrimento incide a dor física, causada por maus hábitos, pela genética e degradação do corpo, na qual estamos todos destinados. No entanto, em cada cultura e sociedade, o ser dela participante encontra sua maneira de seguir em frente e, ainda que poucos “adaptados”, lutam para sobreviver.

A máxima “cada um carrega a cruz que merece”, repetida há tempos, tem sua verdade à medida que questiono a natureza peculiar do sofrimento. Sua intensidade é equivalente à percepção, formada características da personalidade e experiências. Logo, é inútil comparar-se ao outro que padece. Entretanto, existem indivíduos que se expõe a situações altamente prejudiciais. Assumem condutas de risco, por meio de ações intransigentes, por ignorância, estupidez e/ou autosabotagem. Outros, pelo pobre recurso interno ou por ganhos secundários, que de outro modo não teriam, como atenção, afeto e compaixão, mantêm – se no comodismo. É importante, reconhecer as vulnerabilidades, aquilo que tira o sono e causa o pensar incessante. Não estamos no controle de tudo, o mal é inevitável. O que faremos com esta realidade? É possível escolher?

Um ponto senequiano, abordado por Schopenhauer, não pode deixar de ser mencionado. Trata-se da efemeridade dos prazeres e do sofrimento. O último, benéfico por ser durável e provocar introspecção. O prazer seria “uma carência natural”, frente à “positividade da dor”. Assim, a satisfação e a felicidade, estão intimamente ligadas no modo de enfrentamento às adversidades, individuais e do planeta. Epicuro, afirmava que devemos cultivar o prazer, com serenidade. Ele corrobora com Sêneca, quando diz que devemos afastar-se de possíveis perturbações e conflitos. Para isso, Agostinho de Hipona, afirmou que o melhor caminho era “a reconciliação com Deus”.

É necessário ter instrumentos eficazes para lidar com as bordoadas do destino. A filosofia, sempre colocou a virtude, trazida pelo saber, como condição para o bem-estar. Entregar-se a cada experiência, compreende as debilidades e promove autoconhecimento. O termo “Substine et abstine: abstinência e fortaleza”,  traz a ideia de inserir limite aos prazeres. O que inclui a alimentação balanceada e corpo ativo (reduzindo a possiblidade de “males físicos”). Abrange também o cuidado ao psíquico, repercutindo nos conteúdos expostos no dia a dia e na renúncia a atividades que desperdicem o tempo. A fortaleza seria procurar elementos que melhorassem o “animus”, estado do espírito. Constituiria em cultivar os relacionamentos, exercer a espiritualidade e buscar a transcendência, tão importante para enxergarmos além das coisas. Daí seriam inseridos os elementos de coragem, da prudência e firmeza. Para resistir ao sofrimento, decidir com virtude e realizar-se, diz Bezerra, o ideal seria ter um “modo vivendi” que transmita força e encorajamento. Esta configuração de vida traria cumplicidade, conforto e inspiração, simplesmente pelos sentimentos mútuos, contidos no dar e receber.

Platão, afirmou “todo rei descende de escravo e todo escravo é descendente de reis”. O homem torna-se rei ou escravo pela maneira de agir. Feliz o homem que reconhece as dádivas e possui o equilíbrio para enxergar outras possibilidades de ser e estar neste mundo. Então, vamos à mudança! Não estamos sozinhos.   

O que importa, é a busca pelo discernimento. Saber que o sofrimento, pode revelar outra dimensão da vida, ressignificar a existência e preencher o vazio. É preciso escutar atentamente, aprender e não desperdiçar energia com conflitos sem propósito. Deixo a reflexão do sábio Krishnamurti: “Ao transformar a si próprio, transformará o outro, porque você é o outro. Para se ir longe temos de começar perto; você é o mais perto.” Como seres de todos, podemos minimizar a carga deste sofrer e motivar-se a lutar, sempre, para sempre.

 

 

Imagem: unplash.com

4 Comentários

  1. Tete Costa
    Tete CostaResponder
    07/06/2017 at 10:43

    Simplesmente magnífico.

  2. Maria candida dos santos pereira
    21/06/2017 at 08:00

    0 próximo sou eu, vou ao meu encontro nas asas da borboleta.

    • Fernanda Meira
      04/07/2017 at 12:51

      Que fantástico Maria! Viva bem, seja livre e alcance o que sempre deveria ser: o seu melhor! Um bjo!

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