Negra rica é melhor: O racismo no Brasil

Fernanda Meira
E ela entrou na sala, com os olhos avermelhados de quem já estava a chorar a tempos. Constrangida e perplexa. A sua dor encontrou-se com a minha quando começou a falar. Mencionou seu relacionamento amoroso e os sinais de distanciamento. Implicava com seu cheiro, com o cabelo crespo, com o batom vermelho e se recusava a passeios. O estopim foi à visita a casa dela. Reparou-se na simplicidade e no design da realidade. Terminou tudo. Depois, descobriu ter sido julgada por sua condição social e cor da pele. A dor foi maior que a própria separação. “Nunca imaginaria isso, é ridículo!”, ela disse. Tivemos muitas identificações e fui autorizada a expor seu relato.

O impacto de ser avaliado de acordo com as posses financeiras e origem étnica é significativo, pois representa aquilo que já se conhece de teorias antropológicas, sociais e psicológicas sobre o preconceito social e de cor no Brasil.

Desde a abolição da escravatura, a desigualdade em torno do povo negro tem sido discutida. Mais precisamente, na década de 1930, reconheceu que o preconceito se estendia além da cor e em torno das oportunidades oferecidas a esta população. Consequências da desigualdade econômica.

Hoje, encontramos fortes movimentos em torno da garantia de direitos igualitários para as populações vulneráveis, não se restringindo aos negros – diga-se pretos e pardos – e estendendo aos indígenas, deficientes e mulheres, propagando também o feminismo negro.

Apesar de políticas severas de conscientização das práticas discriminatórias, manifestações de preconceito, como relatado por alguns atletas negros, sendo mais recente o da Rafaela Silva, são estampados. Algumas ações afirmativas, como as cotas nas universidades públicas e privadas, a ampliação de cursos técnicos gratuitos e o acesso a cargos públicos são consideradas meritocracia e, por vezes discutidos de forma banalizada e simplificada, como presenciei em um questionário de uma rádio local. Isso se deve, principalmente, pelo desconhecimento de um contexto histórico, cultural e social. De fato, acredita-se que há muito trabalho a ser feito e que medidas primárias e interventivas precisam ser estabelecidas.

O capitalismo como configuração econômica, com o estímulo da evolução tecnológica e globalizada, apresenta os efeitos colaterais e pode aumentar as diferenças entre ricos e pobres.

Além disso, nas últimas décadas, surgiram novas formas de preconceito. A Universidade Federal da Paraíba realizou um estudo com 120 universitários, a qual se observou que eles consideravam comportamentos discriminatórios contra os negros entre os brasileiros, bem como relacionavam algumas características negativas contra o mesmo, mas não se identificavam como preconceituosos. Concluiu-se que o mecanismo de formação reativa, a qual se reprime ou nega todo tipo de preconceito em relação a si próprio, na verdade se manifesta de forma interna. Existe um conformismo. Há um racismo simbólico e novas formas de preconceito. A discussão se amplia quando se trata as questões de gênero e a colocação de mulheres negras no espaço profissional.

Este fenômeno é demonstrado nas diferenças de oportunidades e no acesso ao conhecimento de qualidade (cabe aqui mencionar os primórdios da educação no Brasil).

Países, como a Austrália e os Estados Unidos, discutem este tema e apresenta algumas diferenças. Para alguns, o racismo se refere a manifestações discriminatórias, oriundas de um pré-julgamento, acerca de um grupo social, a qual se considera inferior. Neste caso, a pessoa é julgada pela sua origem étnica e não precisamente pela condição socioeconômica, embora isso interfira no acesso a muitos serviços da nação. Existem estudos comparativos em torno da população brasileira, considerando o predomínio da desigualdade social crescente.

O “Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil”, publicado em 2013, apresenta o perfil das mulheres negras no Brasil e sua permanência em cargos menores, das condições de pobreza e menor acesso aos sistemas de ensino superior. Alguns dados se referem a toda população negra, como a menor admissão de cargos de poder ou intelectualizados. O índice de pobreza também é maior nesta população. Neste material, o conceito de pobreza pode ser entendido como escassez de recursos ou como “falta de oportunidades para viver uma vida plena”. Por isso, apreender os processos estruturantes e de vulnerabilidades que influenciaram nesta realidade, favorece a compreensão de modo amplo e linear.

Não se pode firmar verdade sobre o todo por um fragmento, mas é possível entender o todo a partir de manifestações como essa.

Longe de um relato dramático, está à manifestação interna de inadequação e de carregar as conquistas e as marcas da herança cultural. Envolve ser privado de oportunidades e duvidar do potencial como humano. Lembrando que as diferenças há séculos, eram ligadas a caraterísticas genéticas, incentivando o determinismo de “classes superiores”.

A partir deste relato, procurei estimular a reflexão sobre o impacto da condição socioeconômica no Brasil, priorizando a população negra neste contexto. De fato, quando mencionada à desigualdade social, incluem-se outras etnias e realidades que precisam ser discutidas.  

O que fazer diante destas perspectivas? Ser ativo, conhecer suas origens, buscar o autoconhecimento, encontrar seu propósito e lugar no mundo, promovem grandes mudanças internas. Identificar o ser humano como singular e em seu contexto social diminui conflitos íntimos de preconceito. Cabe a cada indivíduo restaurar laços pessoais, procurar novos relacionamentos e dividir expectativas e dúvidas.

A capacidade para superar dificuldades, enfrentar queixas e atos de rejeição, vem do amadurecimento pessoal. Não há outro caminho. Precisa ser de dentro pra fora. Ser feliz independente das circunstâncias pode dar trabalho, mas vale a pena.

Lutar por isso, libera a criatividade e possibilita ser quem realmente somos: humanos, dotados de talento e potencial.


 
Imagem: unsplash.com

4 Comentários

  1. Unknown
    18/08/2016 at 02:48

    Ótimo texto Fernanda!Parabéns

  2. Gabriela Botelho
    Gabriela BotelhoResponder
    18/08/2016 at 11:03

    Muito bom seu texto. Acredito, que tal reflexão seja muito importante. Muito bem contextualizado com a atualidade. Parabéns!

    • Fernanda Meira
      19/08/2016 at 19:23

      Obrigada!!!
      Espero contribuir ainda mais com assuntos pertinentes como esse!

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